quinta-feira, 6 de outubro de 2011

“Por que é tão difícil escrever?” Um texto e 6 dicas da Dora Lorch


Quantas vezes temos uma idéia brilhante e achamos que esta idéia daria um artigo, um livro, uma peça? Mas ao sentarmos em frente ao computador, de repente a idéia vai embora, talvez não totalmente,  falta  alguma coisa para que a escrita saia. Cada frase, cada pensamento nos remete a críticas que alguém possa fazer. Tudo nos leva ao fracasso.
Mas o que causa este bloqueio?
Entre ter uma idéia, e escrevê-la há um longo caminho a percorrer. A idéia precisa ser encadeada, embasada, relatada de maneira inovadora, e concluída de acordo. Muitas vezes temos um flash, uma sugestão de algum assunto que poderia interessar, mas concretizar estes pensamentos em texto, bem isso já é outra coisa.
Escrever requer um trabalho interno de digestão de um determinado assunto ou pensamento, e uma gestação de como apresentar esta idéia ao público. As melhores obras são aquelas que trazem a visão particular do autor, traduzidas em palavras certeiras, que traduzem exatamente o que “eu queria dizer”.
Aliás, há muitas histórias parecidas em livros e filmes, mas a maneira de contá-las, o ponto de vista do autor, muda totalmente de uma narrativa para outra, e pode fazer a diferença entre ser ou não ser lido.
De dentro pra fora
Além disso, quando escrevemos estamos trabalhando aspectos internos, portanto para a obra ficar “pronta” é preciso que consigamos resolver questões pessoais.
Isso vale  inclusive para escritas acadêmicas, como teses e artigos. Ao se questionar se determinado modelo acadêmico ainda está atual, podemos estar avaliando nossas próprias existências. Portanto a conclusão estaria  sujeita ao momento do autor, inclusive determinando a escolha do arcabouço teórico,  mais  do que à visão científica do problema.
O mesmo vale para literatura: os desejos, medos, dúvidas,  satisfações e descontentamentos aparecem na escrita. Por isso nos sentimos vulneráveis quando escrevemos: pode ser que os outros não percebam, mas nós nos reconhecemos em cada pedaço daquele trabalho.  É como sentimos vulneráveis quando escrevemos, ver aquilo que não queremos que descubram. E essa sensação de nudez, não raro trava a escrita, ou o mantém trancado dentro de uma gaveta.
Neste quesito a opinião dos outros não faz diferença. Talvez faça mais efeito uma psicoterapia.
Escrever dói. Incomoda. Obriga-nos a mexer em coisas que não queríamos entrar em contato, no entanto são estas coisas que nos cutucam para escrever.
Escrever também dá prazer. Antes disso, dá muito trabalho. Começar um texto é fácil, continuar já é outra coisa, pois depende do que pensamos sobre a situação, e nem sempre temos claro o que achamos. Ás vezes temos vergonha de falar sobre aquilo, porque nos remete a outro aquilo que não queremos lembrar.
O que eu tenho a dizer?
Há ainda aquela dúvida clássica: por que eu? O que eu tenho para dizer aos outros?
Talvez você seja porta-voz de idéias e sentimentos de muitas pessoas, e isso já é o diferencial.
Fique atento aos outros: o que eles gostam de ouvir você dizer?
Estas coisas, que na maioria das vezes nos parecem óbvias, porque fazem parte da nossa visão de mundo, podem ser especialmente interessantes para algumas pessoas,  e estas percepções talvez merecessem ser escritas. Não precisa ser nada tão diferente: alguns colunistas se destacam por seu humor, ou por sua maneira de ver a realidade, ou pela maneira única de expressar sentimentos, emoções, realidades.
O que é literatura?
Há algumas discussões sobre o que é literatura, se ela deve ter um objetivo, se ela vale por si só.
Ana Maria Machado tem um  livro com várias palestras sobre este assunto. Nele, cita  Roberto Drummond comentando a “necessidade de  nos livrarmos da censura de esquerda, que na verdade somos nós mesmos“, já que alguns autores  se cobravam ter um ideal a defender. Ana  lembra que “na literatura vale tudo, a vida, os amores, sonhos, decepções…”
Além disso, cada um de nós tem sua maneira de contar os fatos, e este jeito é trabalhado ao longo de um tempo. Por vezes queremos fazer um texto de uma maneira, mas não estamos  certos de como transmitir aquela idéia, ou ainda a associação de idéias acaba nos levando para lugares inesperados. A essência pode continuar a mesma, ou seja, o que você queria vai ser dito, mas a forma, esta precisa ser lapidada.
Aqui vem uma dica, como qualquer atividade nova na nossa vida, escrever demanda treino, disciplina e constância para que a atividade possa ser automatizada.  Esta prática leva a destreza necessária para escrever no seu estilo. Ana Maria Machado, no livro Ruth e Ana, conta que no começo de sua carreira se esforçava para escrever todos os dias, pelo menos uma página. Pode parecer pouco, mas uma página bem escrita demanda muitos pensamentos, sentimentos e releituras, e trabalho árduo!
Outra dificuldade da escrita: alguns assuntos que nos chamam atenção podem esbarrar em sentimentos que nos causem sensações desagradáveis. Então nosso inconsciente nos leva por meandros que nem sempre temos condições conscientes de resolver. Nestes casos o texto fica parado até que o inconsciente consiga uma maneira de sublimá-lo, ou em linguagem leiga, até que o inconsciente consiga encontrar um jeito de lidar com a situação. Quem sabe a solução não pode vir da reflexão sobre o texto?
Por isso é importante alguns cuidados
Não se preocupe com o que as pessoas vão pensar. Você não consegue controlar os pensamentos dos outros, portanto desconsidere esta variável. Preocupe-se em mostrar o que você acredita. Faça uma escrita que lhe apeteça, que saia de dentro, que te encante. Além disso, como é que você sabe que as críticas serão aquelas que passam pela sua cabeça? Não sabe. E quem disse que a crítica está certa? Vemos muitos filmes que a crítica não gosta e o público adora, e vice-versa.
Escreva pensando em alguém, tanto faz em quem. Quando se escreve pensando em alguém o pensamento sai coerente do começo ao fim, a escrita  faz sentido.
Um bom texto traz alguma coisa nova, um ponto de vista, a argumentação, a maneira de encadear os fatos, a ironia, etc. Este algo mais é a maneira do escritor transcrever a realidade, seus valores e esperanças, e é único. Portanto, seu ponto de vista faz diferença.
Não critique tanto seu texto depois de pronto, deixe-o decantar por um ou dois dias e só depois o releie. Este tempo pode lhe ajudar a identificar se fez ou não um bom trabalho. Quando lemos a escrita em seguida, não conseguimos ter uma boa crítica.
Peça a opinião de pessoas que você confie, mas que possam fazer uma leitura crítica. Dizer que está ótimo, só porque gostam de você não ajuda.
Finalmente não desista. Por mais trabalhoso que seja, escrever é uma atividade profundamente prazerosa.

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